Como calcular o juro composto, com exemplos
É a ideia mais simples e mais poderosa da poupança: os juros também rendem juros. Vê como se calcula e quanto muda com o tempo.
O que é, em duas frases
No juro composto, os juros de cada período são somados ao capital e, no período seguinte, já rendem também. No juro simples isso não acontece: os juros incidem sempre sobre o valor inicial. À primeira vista a diferença parece pequena, mas com tempo suficiente deixa de o ser.
A fórmula, sem complicar
Para um capital inicial sem entregas adicionais, a conta é valor final = capital × (1 + i)ⁿ, em que i é a taxa de cada período e n é o número de períodos. Se a taxa anual é 4% e os juros são capitalizados todos os meses, i fica 4% ÷ 12 = 0,333% e n é o número de anos vezes 12.
Com 1.000€ a 4% durante 10 anos, em capitalização mensal, o resultado é 1.490,83€. Os juros ganhos são 490,83€. No juro simples seriam 400€. A diferença de 90,83€ é o efeito do composto.
E quando se acrescenta dinheiro todos os meses
A maior parte das pessoas não investe uma quantia única, vai juntando valores. Neste caso soma-se à fórmula anterior a parte das entregas mensais, que é m × ((1 + i)ⁿ − 1) ÷ i, com m a entrega mensal. Não precisas de decorar. O que interessa perceber é a lógica: cada entrega começa a render a partir do momento em que é feita.
Com os mesmos 1.000€ iniciais, mais 100€ por mês, a 4% ao ano durante 10 anos, chegas a 16.215,81€. Em 10 anos entregaste 13.000€ no total, por isso 3.215,81€ são juros.
O tempo pesa mais do que a taxa
Quase toda a gente dá atenção à taxa, e faz bem, mas o prazo muda ainda mais o resultado. Mantendo os 1.000€ e os 100€ por mês a 4%:
| Prazo | Total entregue | Valor final | Juros |
|---|---|---|---|
| 10 anos | 13.000€ | 16.215,81€ | 3.215,81€ |
| 20 anos | 25.000€ | 38.900,04€ | 13.900,04€ |
| 30 anos | 37.000€ | 72.718,44€ | 35.718,44€ |
Repara que ao fim de 30 anos os juros já são maiores do que tudo o que lá puseste. Nos primeiros anos o crescimento vem quase todo das tuas entregas, nos últimos vem sobretudo dos juros. É por isso que se diz que começar cedo vale mais do que começar com muito.
A taxa também conta: 2% contra 4%
Se a mesma poupança rendesse 2% em vez de 4%, em 10 anos o valor final seria 14.493,17€ em vez de 16.215,81€. A diferença é 1.722,65€ em apenas uma década. Por isso vale a pena comparar produtos, sem perder de vista o risco: taxas mais altas normalmente trazem mais risco ou menos liquidez.
A regra dos 72
Há um truque de cabeça que ajuda a perceber a ordem de grandeza: dividir 72 pela taxa anual dá, aproximadamente, o número de anos que o dinheiro demora a duplicar. A 4%, são 18 anos. A 6%, são 12. A 2%, são 36. Não é exato, mas serve para estimar sem calculadora.
O que esta conta não inclui
Aqui entram as partes menos agradáveis. Primeiro, os impostos. Em Portugal, os juros de depósitos e de muitos produtos de poupança são, em regra, tributados a uma taxa autónoma de 28%, por isso o rendimento líquido é menor do que o bruto. Se o teu caso for diferente, confirma o tratamento fiscal do produto concreto.
Segundo, a inflação. Se o teu dinheiro rende 4% e os preços sobem 3%, o ganho real é de cerca de 1%. O valor final pode parecer grande em euros, mas comprar menos do que parece. É por isso que, em planos de longo prazo, convém pensar também em termos reais.
Terceiro, as comissões, que podem comer boa parte do rendimento em alguns produtos. E quarto, o facto de as taxas não serem fixas para sempre: uma simulação com 4% durante 30 anos assume que a taxa nunca muda, o que na vida real raramente acontece.
Como usar a calculadora a teu favor
O melhor uso é fazer várias simulações em vez de uma. Experimenta o teu cenário, depois um mais pessimista com uma taxa mais baixa, e outro em que entregas um pouco mais por mês. Vês rapidamente o que mexe mais no resultado e se o plano é realista. Se for para um objetivo concreto, como uma entrada de casa daqui a 8 anos, trabalha ao contrário: define o valor que queres e ajusta a entrega mensal até lá chegares.
Trabalhar ao contrário: quanto preciso de pôr por mês
Uma das utilizações mais úteis da fórmula é partir do objetivo. Imagina que queres juntar 20.000€ para a entrada de uma casa daqui a 8 anos e que a tua poupança rende 3% ao ano. Fazendo as contas, precisas de entregar cerca de 184,59€ por mês. Se tivesses só 5 anos, a entrega sobe para cerca de 309,37€. Ver estes dois números lado a lado ajuda a decidir se o prazo é realista ou se compensa ajustar o objetivo.
O outro lado: quando o juro composto joga contra ti
O mecanismo é o mesmo nas dívidas, só que a favor de quem empresta. Uma dívida de 1.000€ num cartão a 20% de taxa anual, deixada sem pagar e com capitalização mensal, chega a 1.219,39€ ao fim de um ano e a 1.813,13€ ao fim de três. Os juros começam a render juros, e a bola de neve cresce depressa. É por isso que se costuma dizer que o juro composto é o melhor amigo de quem poupa e o pior inimigo de quem deve. Se tens dívidas caras e uma poupança a render pouco, quase sempre é mais vantajoso liquidar primeiro a dívida.
Um erro comum: misturar taxa mensal e taxa anual
Quando alguém diz "rende 1% ao mês", é tentador multiplicar por 12 e concluir que são 12% ao ano. Com juro composto não é bem assim: 1% ao mês, capitalizado 12 vezes, dá cerca de 12,68% ao ano. A diferença parece pequena, mas ao fim de vários anos pesa. O contrário também acontece, e uma taxa anual de 12% não equivale a 1% ao mês exato. Antes de comparar produtos, confirma sempre se a taxa indicada é mensal ou anual e como é feita a capitalização.
Podes testar os teus números na calculadora de juro composto. Se estás a pensar no outro lado da moeda, o do crédito, passa pelo guia sobre como calcular a prestação de um empréstimo.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre juro simples e composto?
No simples, os juros incidem só sobre o capital inicial. No composto, incidem também sobre os juros já acumulados, por isso o crescimento acelera com o tempo.
A capitalização mensal rende mais do que a anual?
Sim, ligeiramente, para a mesma taxa nominal. Quanto mais frequente a capitalização, maior o valor final, embora a diferença seja pequena nas taxas habituais.
Os juros que recebo pagam imposto?
Em regra, sim. Os juros de depósitos e de muitos produtos de poupança são tributados em Portugal, normalmente a 28%. Confirma sempre as condições do teu produto.
Quanto tempo demora a duplicar o dinheiro?
A regra dos 72 dá uma boa estimativa: divide 72 pela taxa anual. A 4%, são cerca de 18 anos; a 6%, cerca de 12.
Esta simulação é uma promessa de rendimento?
Não. Assume uma taxa constante, que na realidade pode mudar. Serve para comparar cenários, não para garantir resultados.