Como calcular a prestação de um empréstimo
Montante, taxa e prazo: três números que decidem quanto pagas por mês e quanto pagas no total. Vê a conta por dentro e o que perguntar ao banco.
Como funciona uma prestação constante
Na maior parte dos créditos pessoais e automóveis, pagas todos os meses o mesmo valor. Isso não quer dizer que a composição seja igual. Dentro de cada prestação há duas partes: os juros daquele mês, calculados sobre o que ainda deves, e uma parcela que amortiza o capital. No início, como deves muito, a parte dos juros é grande. À medida que o capital desce, os juros descem e a amortização sobe, mesmo com a prestação sempre igual.
A fórmula
A prestação mensal calcula-se com prestação = M × i ÷ (1 − (1 + i)⁻ⁿ), em que M é o montante emprestado, i é a taxa mensal (a TAN anual a dividir por 12) e n é o número de prestações. Parece pesada, mas num exemplo fica clara.
Um empréstimo de 10.000€ a 7% de TAN, a pagar em 5 anos (60 prestações), tem uma prestação de 198,01€. No fim, terás pago 11.880,72€, ou seja, 1.880,72€ de juros.
Os dois primeiros meses por dentro
No primeiro mês, os juros são 10.000 × 0,07 ÷ 12 = 58,33€. Da prestação de 198,01€, só 139,68€ vão abater o capital. Ficas a dever 9.860,32€. No segundo mês, os juros são 57,52€ e o capital amortizado já sobe para 140,49€. Parece pouco, mas é assim que a dívida vai encolhendo e é por isso que pagar mais cedo, quando os juros pesam mais, costuma poupar mais dinheiro.
O prazo muda tudo
É a variável que mais gente subestima. Para os mesmos 10.000€ a 7%:
| Prazo | Prestação | Total pago | Juros |
|---|---|---|---|
| 3 anos | 308,77€ | 11.115,75€ | 1.115,75€ |
| 5 anos | 198,01€ | 11.880,72€ | 1.880,72€ |
| 7 anos | 150,93€ | 12.677,85€ | 2.677,85€ |
Esticar de 3 para 7 anos reduz a prestação em cerca de 157,84€ por mês, o que sabe bem ao orçamento. Mas pagas 1.562,10€ a mais em juros. Os bancos sabem disto e é normal sugerirem o prazo mais longo, porque a prestação parece mais leve. Vale a pena perguntar sempre: e se fosse mais curto?
TAN, TAEG e a conta que realmente importa
A TAN é a taxa nominal, a que entra na fórmula acima. Só que o crédito raramente custa apenas juros. Pode haver comissões de abertura, imposto do selo, seguros obrigatórios e outras despesas. A TAEG, taxa anual de encargos efetiva global, junta tudo isso numa só percentagem e é por isso a melhor medida para comparar ofertas. Duas propostas com a mesma TAN podem ter TAEG bem diferentes.
Em simulações como a que fazemos aqui só entra a TAN, por isso o resultado é uma aproximação. Para o valor final a pagar, pede sempre a simulação do banco.
O documento que deves pedir: a FINE
Antes de contratar um crédito ao consumo, a instituição tem de te entregar a Ficha de Informação Normalizada Europeia, a FINE. É um documento de poucas páginas, igual em todos os bancos, com o montante, a TAN, a TAEG, o valor da prestação, o custo total e as condições de reembolso antecipado. A vantagem é poderes pôr duas FINE lado a lado e comparar sem te perderes na publicidade.
Direitos que muita gente esquece
Em créditos ao consumo, tens em regra 14 dias para desistir do contrato sem ter de dar justificação, o chamado direito de livre revogação. Também podes reembolsar o crédito antes do prazo, total ou parcialmente. A instituição pode cobrar uma compensação, mas a lei limita-a, em regra a 0,5% do valor reembolsado se faltar mais de um ano e 0,25% se faltar menos. Confirma estes pormenores no teu contrato, porque variam com o tipo de crédito.
Cuidado com o crédito rotativo e os cartões
Tudo o que aqui está assenta num empréstimo com prestação fixa. Os cartões de crédito e as linhas rotativas funcionam de outra maneira: pagas uma percentagem do saldo e o resto continua a render juros, geralmente a taxas bem mais altas. Quem paga só o mínimo pode demorar muitos anos a liquidar uma dívida pequena. Se tens uma dívida assim, fazer uma simulação como as acima ajuda a perceber quanto custa mantê-la.
Uma maneira prática de decidir quanto pedir
Em vez de partires da prestação que "cabe", experimenta partir do total. Por exemplo, 20.000,00€ a 6% em 7 anos dão uma prestação de 292,17€, e 24.542,37€ no total. Pergunta-te se compensa pelo que vais comprar. Depois confirma que a prestação não passa de uma fatia razoável do que recebes líquido por mês, para não ficares sem margem se aparecer um imprevisto. Não há um número mágico, mas deixar espaço para o inesperado é um bom princípio.
Taxa fixa ou taxa variável
Tudo o que fizemos acima assume uma taxa que não muda. Em muitos créditos, sobretudo à habitação, a taxa é variável e depende de uma taxa de referência, normalmente a Euribor, a que se soma um valor fixo chamado spread. Quando a Euribor sobe, a prestação sobe, e quando desce, desce. Isto não muda a lógica da conta, apenas obriga a refazê-la sempre que a taxa é revista. Se estás a escolher entre as duas, pergunta ao banco qual seria a prestação se a taxa subisse dois pontos percentuais, e vê se consegues aguentar.
Seguros e comissões: o que perguntar antes de assinar
Há bancos que oferecem uma TAN mais baixa se contratares seguros ou outros produtos, e a diferença pode desaparecer quando somas o prémio mensal. Vale a pena perguntar quais são obrigatórios e quais são opcionais, se podes contratar o seguro noutra seguradora, e que comissões existem na abertura, na gestão e no reembolso. Escreve as respostas e confere com a FINE. Se algo na conversa não bater certo com o papel, pede esclarecimentos antes de assinar, porque depois de assinado é mais difícil mudar.
Se começares a ter dificuldade em pagar
Ninguém assina um crédito a pensar que não vai conseguir pagar, mas acontece, com um desemprego ou uma despesa grande. O conselho que costuma ser dado por quem trabalha nisto é falar cedo com o banco, antes de falhar prestações. Os bancos têm de seguir um procedimento de regularização de incumprimento, conhecido pela sigla PERSI, que pode levar a renegociar prazos ou condições. Atrasos prolongados geram juros de mora e podem ser comunicados à Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal, o que dificulta pedir crédito mais tarde. Quanto antes avisares, mais opções tens.
Tens os números do teu caso? Faz a simulação no simulador de empréstimo. Para um crédito à habitação, que tem Euribor e regras próprias, usa antes o simulador de crédito habitação. Para ver o efeito inverso, o da poupança, lê como calcular o juro composto.
Perguntas frequentes
A prestação é sempre igual até ao fim?
Em empréstimos de taxa fixa e prestação constante, sim. Em créditos de taxa variável, como muitos à habitação, a prestação pode mudar quando a taxa de referência muda.
Qual é a diferença entre TAN e TAEG?
A TAN é só a taxa de juro. A TAEG inclui também comissões, impostos, seguros obrigatórios e outros encargos, por isso é a melhor para comparar propostas.
Compensa pagar um empréstimo antes do prazo?
Muitas vezes sim, sobretudo no início, quando os juros pesam mais. Vê na FINE e no contrato se existe compensação por reembolso antecipado e quanto custa.
Posso desistir de um crédito depois de assinar?
Em créditos ao consumo existe, em regra, o direito de livre revogação durante 14 dias. Confirma o prazo e o procedimento no teu contrato.
Que prazo devo escolher?
Prazos curtos custam menos em juros mas têm prestações maiores. Escolhe o prazo mais curto que consigas pagar sem pôr o orçamento em risco.